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A Gameleira Branca de Irôko, o Tempo

À frente da Casa de Umbanda, há uma gameleira branca que leva o axé de todos nesse terreiro, nela está envolto o alá honrando Irôko, O Tempo imemorável.

gameleiraA gameleira Branca de Irôko

“O Tempo dá, o Tempo tira, o Tempo passa e a folha vira!” – Esse ditado africano mostra o poder deste orixá nos destinos de tudo o que está vivo, mostra sua implacável influência na natureza ao nosso redor, assim como em nós mesmos!

Homenageado em 04 de outubro, dia de São Francisco de Assis com quem é feito sincretismo pela igreja católica.

Irôko, o Tempo Místico

Irôko , o Tempo é uma árvore mítica, primordial, que existe desde de o início dos tempos, ao tempo sobrevive e a tudo neste mundo assiste.iroko

Na copa dessa gameleira branca vivem as Yamis Osorongá, as feiticeiras da floresta e através dessa árvore todos os orixás desceram a terra.

Irôko, o Tempo é o “orixá do grande pano branco que envolve o mundo“, em alusão feita às nuvens do céu.

Irôko, o Tempo representa os ciclos da natureza ao longo de toda a eternidade, é o orixá que concede aos seres humanos somente aquilo que é de merecimento.

O cumprimento do carma de cada um de nós, determinando o início e o fim de tudo está nas mãos de Irôko, o Tempo.

Invocado principalmente nas questões de difícil solução, como a iminência de morte de alguém, por exemplo.

Ele rege as obrigações de santo e ordena o mundo com precisão. Seu culto está intimamente ligado ao culto de Ossaim, o protetor e mestre no uso dos poderes das folhas.

A saudação é “Iroko Y Só!” e raras são suas incorporações nos terreiros, assim como são raros seus filhos de santo.

Exú é Exú

Exú é Exú

exu

Exú é faca que corta, afiada e pronta à finalidade. É brincalhão, mas com Exú não se brinca. Não se veja ele como se vê os espíritos da Umbanda, pois na Quimbanda tudo tem outra conotação. É outra polaridade. Não há nem comiseração e nem meios termos. Há, sim, fidelidade – e muita – mas sem qualquer tipo de apego. O único apego de Exú é à Lei divina, da qual é acirrado guardião.
A lida de Exú é feia. A eles cabe a escória do mundo espiritual, o lodo da humanidade. Não lhes seriam apropriados arquétipos de muita delicadeza. Toleram bastante a impertinência dos encarnados mas desde que essa não esteja lhes prejudiquem o trabalho, pois quando Exú tem um dever a cumprir ele cumpre. Não há ‘talvez’ com esses senhores.
Aprendi a ser diligente com Exú por ser essa uma força que vibra na neutralidade entre o humano e o divino. Aprendi a ser cautelosa com eles por terem personalidade muito forte. Aprendi a admirá-los por serem trabalhadores incansáveis dos Orixás e, por fim, aprendi a amar os Exús pelo tanto que já me ajudaram e ensinaram nessa vida.
Se não fosse Exú, entendam ou não os que são de outra religião, esse mundo já tinha virado um grande inferno há muito tempo.
Laroiê Exú!

Exú é o equilíbrio de tudo

exu___

Abaixo transcrevo uma lenda que encontrei num livro de Pierre Vergé. Mesmo advinda de uma visão mítica, própria do Candomblé, a estória me parece bastante auxiliar para a compreensão de Exú também como arcano da Umbanda:

Havia uma estrada que dividia quatro fazendas, cujos fazendeiros eram amigos. Certa vez passou um homem por essa estrada, que sobre a cabeça usava um vistoso chapéu. Ao final do dia, os fazendeiros comentaram o fato. Um deles disse: “Viram o homem de chapéu preto?” E o outro: “Preto? O chapéu era azul!”. E o terceiro: “São cegos? O chapéu era verde!”. E o último: “Vocês estão loucos, eu vi bem e o chapéu era vermelho como sangue!”. E passaram a discutir. Sem que um conseguisse convencer o outro, acusaram-se mutuamente de mentirosos. Juntou gente para ver o tumúlto. Já estavam nas vias de fato quando lá de trás grita o tal homem: “Parem de brigar, estúpidos! Era eu quem usava o chapéu. Eu sou Exú, e gosto de causar confusão!”Parece boba, mas a lenda é instrutiva. Exú nada mais fez do que passar pela estrada com seu chapéu de quatro cores (a simbolizar os quatro elementos, os pontos cardeais, as quatro fases do processo alquímico…), indicando que domina as forças da natureza e situa-se no centro desse poder. Esse também é, em outras palavras, o significado da encruzilhada. Também confirmamos aqui que Exú, em sua completude, será sempre mistério, sobre-humano, para nós. Podemos mirá-lo em um de seus aspectos, ou em outro, mas seu todo permanecerá oculto.

Não foi Exú quem causou a confusão, os homens brigaram por si mesmos. Ele somente provou aos fazendeiros que se tivessem confiado um na palavra do outro teriam decifrado a verdade. Numa saudável lição de humildade, Exú devolveu aos homens sua própria torpeza. Eis um de seus muitos atributos. Por isso se afirma que ele é neutro e habita o ponto de equilíbrio entre o Céu e a Terra.

Exú é o equilíbrio de tudo.

Laroyê Exú

Incrivelmente real

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Analisando friamente, só há duas possibilidades: ou a Umbanda é mesmo algo espiritual, mágico, extraordinário e supra-humano – e, bem por isso, deveras notável – ou se trata de uma manifestação patológica do inconsciente de centenas de milhares de pessoas, durante décadas, todas em surto psicótico grave e coincidente, numa alucinação esquizofrênica coletiva sem precedentes.
Mesmo que a segunda hipótese fosse minimamente factível, seria igualmente fenomenal. 
Saravá a Umbanda, beleza incrível e real. 

Somos um Terreiro de Umbanda

Compartilho com vocês esse texto que achei bem legal.
Saravá!

 

pe no chao

Simplesmente Umbanda. Sem fórmulas mágicas, muito menos tenda de milagres. E consideramos também que mais importante do que ficarmos presos a idéias pré-concebidas de escolas ditas iniciáticas de Umbanda, ou permanecermos presos a conceitos ultrapassados, é buscarmos fazer a caridade incondicional.

Não importa qual ritualística que cada Terreiro de Umbanda siga. Não importa se “escrevem” Oxoce, Oxossi ou Oxosse. Não importa se consideram Nanã Orixá dono de “Ori” (coroa) ou não. Não importa se consideram mais Orixás ou menos Orixás… O que realmente deve importar quando se procura um Terreiro de Umbanda não é o Terreiro (se é bonito, feio, pobre, rico, etc), mas sim A UMBANDA! É claro, que o cuidado com que a obra física é tratada nos fala dos dirigentes e médiuns do terreiro, mas não nos fala de Caridade. O quanto de Caridade o terreiro pratica. Só indo e assistindo as sessões, as giras, observando como se trabalha, a disciplina, os objetivos, o amor. Não cobrando por absolutamente NADA. Não fazendo “trabalhinhos” de amarração, ou para trazer a “pessoa amada” de volta em “x” dias. Fazendo um trabalho constante de amor e fraternidade espiritual e material/social.

A Umbanda é uma religião absolutamente aberta que tem inúmeras diferenças de interpretação, que variam de região para região assim como de terreiro para terreiro. É com a ritualística que nos idenficamos ou não num primeiro momento, mas devemos lançar um olhar mais profundo e examinarmos melhor os objetivos da Casa. Se tem atabaques, se tem palmas, como é a abertura, o desenrolar da gira, a que a gira se destina. O “como” pode variar e varia muito. E é com o “como” que nos identificamos ou não. Mas isto não nos fala de Caridade também. Para um Terreiro poder se dizer de Umbanda, lá deve haver amor, compromisso com o próximo, caridade descompromissada, um trabalho constante de solidariedade, disciplina, respeito e estudo.

Existem inúmeros sites e livros que falam da “origem” da Umbanda. Uns falam que começou com Zélio de Moraes e o Caboclo das 7 Encruzilhadas, outros falam que veio da África, outros falam que começou na Atlântida… outros… Agora, cá entre nós… isto é realmente importante? Ou simplesmente, em alguns casos, puro preconceito ou vaidade? Por que sublinhei “em alguns casos”? Porque existem muitas pessoas honestas nos mais variados segmentos da Umbanda. Nas mais diversas “origens”… O importante é compreender que esta é a verdade de cada um e como tal deve ser respeitada.

Mas existem algumas coisas que em absoluto nós não podemos aceitar e muito menos respeitar… é que se cobre por qualquer coisa, não podemos aceitar trabalhos sob encomenda pagos… Não podemos aceitar a falta de compromisso com o Bem, não podemos aceitar que se coloquem como a única “salvação” para aquela alma, que se não realizar um “despacho” ali no seu terreiro, a vida não irá prá frente. Isto não é Umbanda!

No que acreditamos como origem da Umbanda? Como forma de culto oficial, que tenha começado com Zélio de Moraes. Mas como força? Desde que o mundo é mundo… já que a Umbanda é uma religião naturista, ou seja, cultua e tem como sua base a natureza. Quanto a Origem Africanista? Sim é claro que acreditamos nela, é só observar os vocábulos… os próprios nomes dos Orixás (a própria palavra Orixá).

Não nos propomos a sermos os “donos da verdade”. Desejamos apenas divulgar a UMBANDA e não a nós mesmos. Desejamos apenas, através deste site, informar as pessoas que existe mais um terreiro de Umbanda, que pratica a caridade pela caridade. Um cantinho onde podemos encontrar os bons conselhos de um Preto Velho, as orientações enérgicas de um Caboclo, e as “dicas” de vida material dos Exus. Mas cada terreiro também tem a sua própria raiz, a sua própria história, e é isto que pretendemos mostrar um pouco aqui… a Nossa Raiz, a Nossa História.
Por tudo isto e muito mais eu digo: Seja bem-vindo ao cantinho virtual do Centro Espiritualista

Caboclo Pery. SARAVÁ UMBANDA!!!

Mãe Iassan Ayporê Pery

Dirigente do CECP

Umbanda: Contos e Causos

DE OLHOS FECHADOS
Autor: Cassio Ribeiro
(Umbandista, radialista e presidente da Fucabrad)

Sentado ali em frente de seu conga o velho pai de santo relembra com surpreendente nitidez sua infância e seu primeiro contato com a espiritualidade. Nitidamente ele se vê na tenra infância a brincar sozinho no amplo quintal da casa de seus pais. Lembra-se que alguma coisa o fez olhar para as nuvens e diante dele uma estranha imagem se forma: um velho sentado ao redor de uma fogueira e um menino a ouvir-lhe estórias. De alguma maneira o menino ao ver aquela cena sabia que se tratava dele mesmo.
O tempo passou e a cena jamais esquecida e também jamais revelada, o acompanha em sonhos e lembranças. Cresce e acaba se tornando mediun Umbandista. Aos poucos vai conhecendo seus guias, que vão tomando seu corpo nas diversas “giras de desenvolvimento”.
Primeiro o Caboclo que lhe parece muito grande e forte, depois os demais até que, ao completar 18 anos, seu Exu também recebe permissão para incorporar.
Já não é mais mediun de gira, a bem da verdade ocupa o cargo de pai pequeno do terreiro.
Percebe que não tivera uma adolescência como a da maioria dos jovens que lhe cercam na escola. Não vai a bailes , festas… Dedica-se com uma curiosidade e um amor cada vez maior a pratica da caridade. Os anos passam e acaba pôr abrir seu próprio terreiro. Inúmeras pessoa procuram os seus guias e recebem um lenitivo, uma palavra de consolo e esperança…
Foram tantos os pedidos e tantos os trabalhos realizados que já perdera a conta. Viu inumeras pessoas que declaravam amor eterno pela Umbanda e bastava que alguns pedidos não fossem alcançados na plenitude desejada que já se afastavam criticando o que ontem lhes era sagrado…
Presenciou pessoas que vindas de outras religiões e que encontraram a paz dentro do terreiro, mantido a duras penas, uma vez que nada cobrava pôr trabalhos realizados (“Dai de graça o que de graças recebestes”).
Solteiro permanecia até hoje pois embora tivesse tido várias mulheres que lhe foram caras, nenhuma delas agüentou ficar a seu lado, pois para ele, a vida sacerdotal se impunha a qualquer outro tipo de relacionamento.
Amava mesmo assim todas aquelas que lhe fizeram companhia em sua jornada terrena. Brincava, o velho pai de santo, quando lhe perguntavam se era casado e respondia, bem humorado, que se casara muito cedo, ainda menino.
A curiosidade dos interlocutores quanto ao nome da esposa era satisfeita com uma só palavra: Umbanda, este era o nome da esposa.
Com o passar do tempo, a idade foi chegando; muitos de seus filhos de fé seguiram seus destinos vindo eles também a abrirem suas casas de caridade.
O peso da idade não o impede de receber suas entidades. Ainda ecoa, pelo velho e querido terreiro, o brado de seu Caboclo, o cachimbo do preto velho perfuma o ambiente, a gargalhada do Exu ainda impressiona, a alegria do Ere emociona a ele e a todos…
Enfim, sente-se útil ao trabalhar…
Hoje não tem gira. O terreiro está limpo, as velas estão acessas e tudo parece normal. Resolve adentrar ao terreiro para passar o tempo, perdera a noção das horas. Apura os ouvidos e sente passos a seu redor, percebe que alguém puxa pontos e que o atabaque toca.
Ele esta de costa para todos de frente para o conga.
O cheiro da defumação invade suas narinas…
Seus olhos se enchem de lágrimas na mesma proporção que seu coração se enche de alegria.
Estranhamente, não sente coragem ou vontade de olhar para trás, apenas canta junto os pontos.
Fixa seus olhos nas imagens do altar, fecha os olhos e ainda assim vê nitidamente o conga, parece que percebe o movimento do terreiro aumentar.
Vira de costas para o conga e a cena o surpreende: vê caboclos, boiadeiros , pretos velhos, marujos, baianos, erês e toda uma gama de Guias até Exus e Pomba Giras estão ali na porteira.
Se dá conta que os vê como são, não estão incorporados. Todos lhes sorriem amavelmente.
Dentre tantos Guias, percebe aqueles que incorporam nele desde criança. Tenta bater cabeça em homenagem a eles mas é impedido.
O caboclo, seu guia de frente, se adianta, lhe abraça, brada seu grito guerreiro…os demais o acompanham.
O velho pai de santo não agüenta e chora emocionado…
As lagrimas lhe turvam a vista. Fecha seus olhos e ao abri-los todos os guias ainda permanecem em seus lugares embora calados…
Nota uma luz brilhante em sua direção, Yansa e Omolu se aproximam, seu caboclo os saúda e é correspondido.
A luz o envolve completamente. Já não se sente mais velho; na verdade sente-se jovem como nunca. Seu corpo está leve e ele levita em direção à luz. Todos os guias fazem reverência…
O terreiro vai ficando longe envolto em luz…Ele sorri alegre…A missão estava cumprida…
No dia seguinte, encontram seu corpo aos pés do conga. Tinha nos lábios um sorriso…

Umbanda: Contos e Causos

Preto_Velho1

Mensagem de Preto Velho
Pai Jerônimo

“Um certo dia, ele atendeu de uma senhora que lhe veio consultar sobre um tumor nos seios, diagnosticado por uma mamografia.

Passes daqui, trabalhos dali, enfim, uma consulta normal…vela, erva, água…

Disse o preto:

– É mizim fia… Tá feito…mas num deixa de procurá o Homi de branco, dispois vem contá pro nego…nego vai ficá no toco esperando zunce vortá…

E saiu a consulente.

Numa próxima gira, estava lá o preto no toco e chegou a sua consulente, já na segunda parte do trabalho.

– Podi entrá mi zim fia, tava le esperano….

– É meu Velho, fui no médico sim… ele disse que o tumor sumiu, vai ver foi engano, o que a mamografia mostrou foi uma sombra de um queloide, que eu já tinha de cirurgia anterior. mas vim lhe agradecer, pois sei que o Senhor me curou..

Diga, meu Pai, o que o Senhor quer de presente, quero lhe agradecer…

Em nossa casa, as entidades as vezes ganham presentes, charutos, bebidas, mas não que peçam, porque as pessoas trazem em agradecimento mesmo, como deve ser em todo lugar.

Mas naquele dia o preto pediu…

– Me traga um bolo de chocolate, mi zi fia, suncê pode faze isso…?? Mais tem qui ser na próxima gira… eu num vô tá aqui, mas fala com o caboclo chefe que ele manda mi chamá….

Todos estranharam, e eu mais ainda, passei a semana pensando naquele pedido, eu que amo bolo de chocolate, pensava comigo, Meu Velho… porque um bolo, Meu Pai… Até os filhos da casa acharam estranho e houve uma brincadeira ou outra… do tipo achando que iam comer o bolo….Alguém arriscou dizer que era a comemoração pela cura da mulher… Enfim… esperei ansiosa… Afinal… confio neles.

Em verdade torci para a mulher nem aparecer com aquele bolo…

Mas ela apareceu, e sentou na primeira fila, como tal bolo, todo confeitado de confetes coloridos.

Chegou o preto, com autorização do chefe do terreiro, que é Seu Serra Negra….

– Trouxe meu bolo, mi zim fia…

– Trouxe meu velho…

Então o preto levantou e disse que na assistência tinha uma menina, de cor morena, que estava fazendo aniversario, 14 anos, e chamou-a.

Disse à menina:

– Mi zim fia, esse é presente que sunce pediu ao seu anjo da guarda, ele não pode vir, mandou o nego te entregar…

A criança marejou os olhos e saiu com o bolo na mão, sentar ao lado da mãe, que chorava muito na assistência. Em 14 anos, nunca havia ganhado um bolo de chocolate….Nunca mais voltou, nunca mais vimos. E nunca esquecemos esta história.”

Autor desconhecido