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Incrivelmente real

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Analisando friamente, só há duas possibilidades: ou a Umbanda é mesmo algo espiritual, mágico, extraordinário e supra-humano – e, bem por isso, deveras notável – ou se trata de uma manifestação patológica do inconsciente de centenas de milhares de pessoas, durante décadas, todas em surto psicótico grave e coincidente, numa alucinação esquizofrênica coletiva sem precedentes.
Mesmo que a segunda hipótese fosse minimamente factível, seria igualmente fenomenal. 
Saravá a Umbanda, beleza incrível e real. 
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Umbanda e Candomblé são religiões, Sim!

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O triste veredicto de um juiz mal informado

 

Movimento negro pede punição contra magistrado, acusado de estimular o preconceito

 

Por: Luis Pellegrini

 

Lamentável e inquietante a recente decisão do juiz Eugênio Rosa de Araújo, da 17a Vara criminal do Rio de Janeiro, ao definir que umbanda e candomblé “não são religiões” e que, por isso, não merecem proteção judicial contra afrontas, ofensas e humilhações na Internet.

A decisão é lamentável porque denota, em se tratando de um magistrado, um inacreditável desconhecimento de causa. Inquietante, porque ela vai contra nossa Carta Magna, a Constituição Brasileira, que garante proteção e liberdade de culto a todos os cidadãos, sem exceção de raça, cor ou credo religioso.

 

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Umbanda e candomblé não apenas são sistemas religiosos autênticos, reconhecidos por todas as ciências humanas e históricas, bem como pela tradição popular, como estão ambos enraizados na nossa cultura há séculos. Além disso são, todos os dois, herdeiros diretos da mais antiga e persistente tradição religiosa e espiritual ainda existente na face da Terra: o animismo.

O termo animismo foi criado pelo antropólogo inglês Sir Edward B. Tylor, em 1871, na obra Primitive Culture (A Cultura Primitiva). Por esse termo Tylor queria designar a manifestação religiosa imanente a todos os elementos do cosmos (Sol, Lua, estrelas), a todos os elementos da natureza (rios, oceanos, montanhas, florestas, rochas), a todos os seres vivos (animais, fungos, vegetais) e a todos os fenômenos naturais (chuva, vento, dia, noite). O animismo considera a existência de um princípio vital e pessoal, chamado de ânima, o qual apresenta significados variados:

a) Na sua acepção cosmocêntrica, ânima significa energia;
b) Na antropocêntrica, significa espírito;
c) Na teocêntrica significa alma.

Consequentemente, todos esses elementos são passíveis de possuir sentimentos, emoções, vontades ou desejos e até mesmo inteligência. Resumidamente, os cultos animistas alegam que: “Todas as coisas são vivas”, “Todas as coisas são conscientes”, ou “Todas as coisas têm ânima”. A recente Hipótese Gaia, teoria geológica e ecológica formulada pelo ambientalista britânico James Lovelock é, por exemplo, uma teoria científica de fundo claramente animista. Ela afirma que a Terra não é uma imensa porém simples bola mineral rodopiando no espaço sideral. Muito mais que isso, para Lovelock nosso planeta é um organismo vivo, dotado de um corpo, uma inteligência, uma psique sensível e, inclusive, uma alma e um espírito!

 

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A mais antiga tradição religiosa do mundo

 

A tradição animista remonta à era das cavernas, aos tempos em que o homem, já dotado de razão, começou a investigar os fenômenos, ciclos e processos da Natureza na tentativa de encontrar respostas e significados para a sua própria existência e a do mundo. De tão antigo, o animismo pode ser considerado o filão primordial e troncal de onde se originaram todas as demais religiões, inclusive as três “Religiões do Livro”: o cristianismo, o judaísmo e o islamismo.

Se a umbanda e o candomblé, religiões de raiz animista, são bastante claras na exposição de tais conceitos, a maior parte dos estudiosos afirma que eles também estão presentes em muitos aspectos – sobretudo ritualísticos – em quase todas as outras religiões. O próprio “milagre da transubstanciação”, instante crucial da missa, no qual, segundo a crença católica, o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Cristo, constitui, em última análise, um rito animista. E, no judaísmo, qualquer judeu sabe perfeitamente o que é o rito do kaparoth, quando, na véspera do Yom Kippur, o rabino segura uma galinha viva (para as mulheres) ou um galo vivo (para os homens), fazendo-os girar repetidas vezes ao redor da cabeça do fiel. As fórmulas que ele recita nessa ocasião traduzem claramente a ideia de que as aves absorverão os pecados e as “más energias” das pessoas e que sua morte lhes trará a absolvição. Os animais são em seguidas degolados por um sho‘heth (sacrificador ritual), e em seguida consumidos pela família, que deve oferecer seu valor em dinheiro aos pobres. Exatamente a mesma coisa que se faz em certas linhas do candomblé.

Em sua sentença, o juiz Eugênio Rosa de Araújo argumenta que os cultos afro-brasileiros “não contêm os traços necessários de uma religião”. De acordo com ele, as características essenciais de uma religião seriam a existência de um texto base (como a Bíblia ou Alcorão), de uma estrutura hierárquica e de um Deus a ser venerado.

Com base nesses argumentos, ele rejeitou o pedido do MPF (Ministério Público Federal) para obrigar o Youtube a tirar do ar uma série de vídeos com ofensas à umbanda e ao candomblé. A Procuradoria da República já recorreu da decisão.

 

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Estudar mais, antes de abrir a boca

 

Uma pergunta crucial: Por que esse juiz não buscou informação mais abalizada antes de proferir sentença baseada exclusivamente na pobreza de suas convicções pessoais? Supõe-se, comumente, que aos magistrados não falta base cultural de largo espectro, mas parece que também neste quesito a tradição brasileira está desmoronando. A esse juiz bastaria, por exemplo, consultar as obras de Jean Baptiste Romain, doutor em antropologia pela Sorbonne, consultor da Unesco, escritor e ex-presidente da Academia de Ciências Humanas do Haiti. Em seus trabalhos, Romain prova exaustivamente que os estudos científicos a respeito do vodu e dos demais cultos afro-americanos e indígenas mostram que eles contêm todos os elementos básicos de uma religião: uma filosofia, um panteão de divindades, um clero, um ritual, um simbolismo, uma moral, a expressão de uma inquietude sobre o destino final do homem.

O juiz poderia, sem precisar ir à França ou ao Haiti, conversar com Rita Amaral ou Vagner Gonçalves da Silva, ou qualquer outro das centenas de antropólogos, sociólogos e psicólogos sociais que ensinam nas nossas maiores universidades, para que eles lhe dissessem a mesmíssima coisa. Poderia trocar ideias com o monge beneditino pernambucano Marcelo Barros, que foi braço direito de Dom Helder Câmara, é autor de mais de 40 livros e amigo pessoal de pais e mães-de-santo como Estela de Oxóssi, do candomblé Ylê Opô Afonjá, de Salvador, para aprender o que é diálogo inter-religioso e respeito pelas ideias e pelas convicções alheias.

Em São Paulo, Eugênio Rosa de Araújo poderia pedir sugestões de leitura ao editor Carlos Eugênio Marcondes de Moura, o maior especialista nacional em bibliografias sobre as tradições afro-brasileiras. Também em São Paulo, poderia, para sanar suas inquietudes, bater um papo com o babalorixá Carlos Buby, diretor do Templo Guaracy de Umbanda, e um dos mais importantes teóricos dos novos rumos que o movimento umbandista está assumindo em nosso país. Pai Buby certamente teria a paciência de lhe explicar que, no seu entender, a umbanda é uma religião cristã e monoteísta. Ela acredita na existência de um Princípio Divino Único e Universal: Ólorun, que significa: “Deus distante”. Não distante no tempo e no espaço, mas sim distante da nossa limitada capacidade de compreensão intelectual para entender o que é e o que quer o Criador do Universo. Seria exatamente por causa das limitações da nossa mente que, no passado mais remoto, começamos a tentar apreender o que é Deus através da sua obra criada no mundo natural. É por isso, simplesmente, que os animistas sacralizam as coisas e os fenômenos da natureza: um animista não venera uma montanha; ele venera o orixá Xangô, “Deus que se manifesta através da montanha”.

Finalmente, faria bem a esse juiz consultar o espírito de alguns mortos. Em primeiro lugar a antropóloga Dona Ruth Cardoso, ex-Primeira Dama do Brasil, séria estudiosa e analista das tradições brasileiras, e assídua frequentadora de terreiros de umbanda e candomblé em São Paulo e em outros estados. Ela certamente o aconselharia a conversar com o etnofotógrafo Pierre Verger, ou então chamar do paraíso dos dominicanos o saudoso Frei Raimundo Cintra, que conhecia como ninguém os terreiros do Rio de Janeiro e deixou extensa obra literária sobre ecumenismo, diálogo e tolerância inter-religiosa.

 

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É preconceito racial, social e cultural

 

Quanto à pergunta que resta – Por que tantos ataques e tanto desrespeito à herança espiritual que foi trazida da África e aqui juntou-se à tradição indígena e ao cristianismo para constituir o mais autêntico sistema religioso brasileiro? – ela encerra talvez o ponto mais importante. Esse ponto tem a ver com uma única e fundamental equação: aquela que relaciona liberdade e escravidão. Tem a ver com preconceito racial, social e cultural.

O sociólogo e psicoterapeuta junguiano Roberto Gambini tem algo a dizer sobre isso. Em sua obra monumental “Espelho Índio”, ele simplesmente defende a ideia de que, se a mente brasileira é, em certa medida, racional e europeia, a nossa alma nacional é fundamentalmente africana e indígena. E é o fato de não termos ainda equacionado devidamente esse quebra-cabeças a origem de tantos problemas e de tanto atraso do Brasil no concerto geral das nações. Da mesma forma que é também a origem profunda do preconceito que ainda viceja em tantas mentes e em tantos corações. Simplesmente, não aceitamos o fato de sermos negros e índios por dentro. E tentamos com todas as forças eliminar os sinais dessa negritude que se manifestam por fora. O candomblé e a umbanda, por estarem muito expostos, são as primeiras vítimas desse complexo que frequentemente se traduz em tragédia.

Não aceitamos o fato de que, se nossa cabeça é branca e europeia, nosso coração é negro africano e indígena brasileiro. Queremos, a todo custo, arrancar de nós mesmos a nossa hereditariedade anímica, e nesse afã não hesitamos – muitas vezes com arrogância e covardia – a vilipendiar os valores daqueles que são materialmente mais frágeis. Esquecendo que nossa única possibilidade de redenção, no sentido da conquista de uma verdadeira identidade brasileira, será através da integração das nossas três heranças fundamentais: a europeia, a africana, a indígena.

Somos um Terreiro de Umbanda

Compartilho com vocês esse texto que achei bem legal.
Saravá!

 

pe no chao

Simplesmente Umbanda. Sem fórmulas mágicas, muito menos tenda de milagres. E consideramos também que mais importante do que ficarmos presos a idéias pré-concebidas de escolas ditas iniciáticas de Umbanda, ou permanecermos presos a conceitos ultrapassados, é buscarmos fazer a caridade incondicional.

Não importa qual ritualística que cada Terreiro de Umbanda siga. Não importa se “escrevem” Oxoce, Oxossi ou Oxosse. Não importa se consideram Nanã Orixá dono de “Ori” (coroa) ou não. Não importa se consideram mais Orixás ou menos Orixás… O que realmente deve importar quando se procura um Terreiro de Umbanda não é o Terreiro (se é bonito, feio, pobre, rico, etc), mas sim A UMBANDA! É claro, que o cuidado com que a obra física é tratada nos fala dos dirigentes e médiuns do terreiro, mas não nos fala de Caridade. O quanto de Caridade o terreiro pratica. Só indo e assistindo as sessões, as giras, observando como se trabalha, a disciplina, os objetivos, o amor. Não cobrando por absolutamente NADA. Não fazendo “trabalhinhos” de amarração, ou para trazer a “pessoa amada” de volta em “x” dias. Fazendo um trabalho constante de amor e fraternidade espiritual e material/social.

A Umbanda é uma religião absolutamente aberta que tem inúmeras diferenças de interpretação, que variam de região para região assim como de terreiro para terreiro. É com a ritualística que nos idenficamos ou não num primeiro momento, mas devemos lançar um olhar mais profundo e examinarmos melhor os objetivos da Casa. Se tem atabaques, se tem palmas, como é a abertura, o desenrolar da gira, a que a gira se destina. O “como” pode variar e varia muito. E é com o “como” que nos identificamos ou não. Mas isto não nos fala de Caridade também. Para um Terreiro poder se dizer de Umbanda, lá deve haver amor, compromisso com o próximo, caridade descompromissada, um trabalho constante de solidariedade, disciplina, respeito e estudo.

Existem inúmeros sites e livros que falam da “origem” da Umbanda. Uns falam que começou com Zélio de Moraes e o Caboclo das 7 Encruzilhadas, outros falam que veio da África, outros falam que começou na Atlântida… outros… Agora, cá entre nós… isto é realmente importante? Ou simplesmente, em alguns casos, puro preconceito ou vaidade? Por que sublinhei “em alguns casos”? Porque existem muitas pessoas honestas nos mais variados segmentos da Umbanda. Nas mais diversas “origens”… O importante é compreender que esta é a verdade de cada um e como tal deve ser respeitada.

Mas existem algumas coisas que em absoluto nós não podemos aceitar e muito menos respeitar… é que se cobre por qualquer coisa, não podemos aceitar trabalhos sob encomenda pagos… Não podemos aceitar a falta de compromisso com o Bem, não podemos aceitar que se coloquem como a única “salvação” para aquela alma, que se não realizar um “despacho” ali no seu terreiro, a vida não irá prá frente. Isto não é Umbanda!

No que acreditamos como origem da Umbanda? Como forma de culto oficial, que tenha começado com Zélio de Moraes. Mas como força? Desde que o mundo é mundo… já que a Umbanda é uma religião naturista, ou seja, cultua e tem como sua base a natureza. Quanto a Origem Africanista? Sim é claro que acreditamos nela, é só observar os vocábulos… os próprios nomes dos Orixás (a própria palavra Orixá).

Não nos propomos a sermos os “donos da verdade”. Desejamos apenas divulgar a UMBANDA e não a nós mesmos. Desejamos apenas, através deste site, informar as pessoas que existe mais um terreiro de Umbanda, que pratica a caridade pela caridade. Um cantinho onde podemos encontrar os bons conselhos de um Preto Velho, as orientações enérgicas de um Caboclo, e as “dicas” de vida material dos Exus. Mas cada terreiro também tem a sua própria raiz, a sua própria história, e é isto que pretendemos mostrar um pouco aqui… a Nossa Raiz, a Nossa História.
Por tudo isto e muito mais eu digo: Seja bem-vindo ao cantinho virtual do Centro Espiritualista

Caboclo Pery. SARAVÁ UMBANDA!!!

Mãe Iassan Ayporê Pery

Dirigente do CECP

Nas nuvens

Nas nuvens


“As religiões podem colaborar umas com as outras. A Umbanda, por exemplo, ao contrário do que muitos imaginam, tem um forma muito sofisticada de pensamento. Os umbandistas tem os Orixás, que, a exemplo das regiões cármicas do budismo, estão “nas nuvens” [gesticula circulando as mãos acima da cabeça] e podem ser acessados para que sejamos pessoas melhores.”

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Lama Padma Samtem, budista, na TV CULTURA/PR, programa Reflexões, exibido no dia 05 de janeiro 2012

Umbanda: Contos e Causos

DE OLHOS FECHADOS
Autor: Cassio Ribeiro
(Umbandista, radialista e presidente da Fucabrad)

Sentado ali em frente de seu conga o velho pai de santo relembra com surpreendente nitidez sua infância e seu primeiro contato com a espiritualidade. Nitidamente ele se vê na tenra infância a brincar sozinho no amplo quintal da casa de seus pais. Lembra-se que alguma coisa o fez olhar para as nuvens e diante dele uma estranha imagem se forma: um velho sentado ao redor de uma fogueira e um menino a ouvir-lhe estórias. De alguma maneira o menino ao ver aquela cena sabia que se tratava dele mesmo.
O tempo passou e a cena jamais esquecida e também jamais revelada, o acompanha em sonhos e lembranças. Cresce e acaba se tornando mediun Umbandista. Aos poucos vai conhecendo seus guias, que vão tomando seu corpo nas diversas “giras de desenvolvimento”.
Primeiro o Caboclo que lhe parece muito grande e forte, depois os demais até que, ao completar 18 anos, seu Exu também recebe permissão para incorporar.
Já não é mais mediun de gira, a bem da verdade ocupa o cargo de pai pequeno do terreiro.
Percebe que não tivera uma adolescência como a da maioria dos jovens que lhe cercam na escola. Não vai a bailes , festas… Dedica-se com uma curiosidade e um amor cada vez maior a pratica da caridade. Os anos passam e acaba pôr abrir seu próprio terreiro. Inúmeras pessoa procuram os seus guias e recebem um lenitivo, uma palavra de consolo e esperança…
Foram tantos os pedidos e tantos os trabalhos realizados que já perdera a conta. Viu inumeras pessoas que declaravam amor eterno pela Umbanda e bastava que alguns pedidos não fossem alcançados na plenitude desejada que já se afastavam criticando o que ontem lhes era sagrado…
Presenciou pessoas que vindas de outras religiões e que encontraram a paz dentro do terreiro, mantido a duras penas, uma vez que nada cobrava pôr trabalhos realizados (“Dai de graça o que de graças recebestes”).
Solteiro permanecia até hoje pois embora tivesse tido várias mulheres que lhe foram caras, nenhuma delas agüentou ficar a seu lado, pois para ele, a vida sacerdotal se impunha a qualquer outro tipo de relacionamento.
Amava mesmo assim todas aquelas que lhe fizeram companhia em sua jornada terrena. Brincava, o velho pai de santo, quando lhe perguntavam se era casado e respondia, bem humorado, que se casara muito cedo, ainda menino.
A curiosidade dos interlocutores quanto ao nome da esposa era satisfeita com uma só palavra: Umbanda, este era o nome da esposa.
Com o passar do tempo, a idade foi chegando; muitos de seus filhos de fé seguiram seus destinos vindo eles também a abrirem suas casas de caridade.
O peso da idade não o impede de receber suas entidades. Ainda ecoa, pelo velho e querido terreiro, o brado de seu Caboclo, o cachimbo do preto velho perfuma o ambiente, a gargalhada do Exu ainda impressiona, a alegria do Ere emociona a ele e a todos…
Enfim, sente-se útil ao trabalhar…
Hoje não tem gira. O terreiro está limpo, as velas estão acessas e tudo parece normal. Resolve adentrar ao terreiro para passar o tempo, perdera a noção das horas. Apura os ouvidos e sente passos a seu redor, percebe que alguém puxa pontos e que o atabaque toca.
Ele esta de costa para todos de frente para o conga.
O cheiro da defumação invade suas narinas…
Seus olhos se enchem de lágrimas na mesma proporção que seu coração se enche de alegria.
Estranhamente, não sente coragem ou vontade de olhar para trás, apenas canta junto os pontos.
Fixa seus olhos nas imagens do altar, fecha os olhos e ainda assim vê nitidamente o conga, parece que percebe o movimento do terreiro aumentar.
Vira de costas para o conga e a cena o surpreende: vê caboclos, boiadeiros , pretos velhos, marujos, baianos, erês e toda uma gama de Guias até Exus e Pomba Giras estão ali na porteira.
Se dá conta que os vê como são, não estão incorporados. Todos lhes sorriem amavelmente.
Dentre tantos Guias, percebe aqueles que incorporam nele desde criança. Tenta bater cabeça em homenagem a eles mas é impedido.
O caboclo, seu guia de frente, se adianta, lhe abraça, brada seu grito guerreiro…os demais o acompanham.
O velho pai de santo não agüenta e chora emocionado…
As lagrimas lhe turvam a vista. Fecha seus olhos e ao abri-los todos os guias ainda permanecem em seus lugares embora calados…
Nota uma luz brilhante em sua direção, Yansa e Omolu se aproximam, seu caboclo os saúda e é correspondido.
A luz o envolve completamente. Já não se sente mais velho; na verdade sente-se jovem como nunca. Seu corpo está leve e ele levita em direção à luz. Todos os guias fazem reverência…
O terreiro vai ficando longe envolto em luz…Ele sorri alegre…A missão estava cumprida…
No dia seguinte, encontram seu corpo aos pés do conga. Tinha nos lábios um sorriso…

Umbanda e seu significado

Compartilho com vocês uma linda mensagem da Ana Araujo

Você já parou para pensar o porquê de estar na Umbanda e não no evangelismo, catolicismo, espiritismo, budismo?

Para entender melhor isso, dentro do que nossa casa ensina, você precisa ir buscar um entender nas próprias identidades das entidades de Umbanda; Caboclos, negros Africanos, Crianças, Sertanejos, Ciganos, espíritos como Exus que trazem muito da magia ocidental européia, etc.

Existe um porque de cada entidade se identificar de uma forma, dentro de uma generalidade sempre sócio-cultural e/ou racial. E as respostas não estão em roupagem fluídica e disfarces espirituais de vestes X que o espírito usa quando quer, trocando conforme deseja para passar “mensagens” morais e filosóficas com elas. Mas por que?

Muitos espíritas alegam que seja pelo fato da entidade/espírito ser atrasado e preso ainda as vestes de sua encarnação passada. Mas pergunto: por um acaso, um espírito que se manifesta numa sessão espírita para aconselhamento dos adeptos e diz ser Padre João Antunes, também não está usando uma identidade encarnatória? Ou este espírito nunca teve outras existências e somente foi um padre, um homem chamado João Antunes? Claro que não. Ele pode ter sido um médico alemão, um soldado da primeira guerra mundial, um sapateiro judeu, um comerciante árabe, um aborígene australiano, etc. Mas porque se manifesta como João Antunes? Porque possivelmente está foi sua última encarnação ou possível a mais adequada a usar para cumprir seu trabalho junto ao nosso plano carnal. Poderíamos dizer que ele é atrasado porque é apegado a tal encarnação? Não.

Da mesma forma se processa com as entidades sejam de Umbanda, Jurema, encantaria, etc. Porém há grandes e viscerais diferenças que aí sim, separa uma doutrina de outra, fazendo com que sejam de naturezas completamente distintas; a questão da manifestação de grupos de espíritos sob um nome coletivo e uma relação ancestral com cada adepto e fluxo energético invocado e manipulado nessas religiões, pois todas elas, tem duplo caráter: natural (dos elementos da natureza) e espiritual (dos espíritos, incluindo os dos próprios adeptos).

Ao contrário do que muitos podem pensar, as entidades que se manifestam como caboclos, pretos velhos, boiadeiros, ciganos, etc. não são ignorantes e sabem perfeitamente de sua condição, de seu caráter espiritual e se reconhecem como espíritos possuídos de “muitas outras existências”. Já passaram do período de “perturbação pós- morten” e apresentam-se assim, por sua vontade de estar sob uma identidade de uma encarnação que, onde está ligada a seus descendentes familiares comuns aqui encarnados e estão ao seu auxílio e orientação.

Dentro desse panorama podemos entender que a Umbanda é um culto aos antepassados de múltiplas naturezas: a individual; onde a relação é entre adepto e suas entidades que se manifestam através de sua mediunidade, estabelecendo grupos familiares distintos, dentre outros adeptos e suas entidades também. Cada um pode trazer referências antepassadas diferentes e daí talvez possamos vislumbrar porque muitos Pretos velhos trazem em seus nomes, referências a locais africanos como: Congo, Guiné, Cambida, Mina, etc.

Mas assim como temos um caráter individual, temos também um caráter coletivo – espíritos ancestrais que trazem a sabedoria e ciência natural medicinal para a natureza do corpo que reveste nosso espírito. Como também uma reverência ao “espírito alma” de toda consciência antepassada que através da interatividade entre vários povos e inteligências, foram construindo o que hoje é o nosso lar, nosso mundo e toda a tecnologia, ferramentas e condições de melhoria de vida do homem na terra, contribuindo enormemente com o progresso de toda a humanidade. E nós, como almas velhas e também antepassadas de nossa terra, não estamos alheios a tudo isso. Fazemos parte dessa construção e quando cantamos, louvamos e referenciamos aos antepassados africanos, aos índios, mestiços, estamos também relembrando o que fomos, o que também somos nós, em outros estados de consciências e sabedoria secular. A Umbanda por si só, tem todo um caráter de culto e louvor, de integração com a natureza do meio ambiente, da natureza de nosso ser, em ressonância com nossa família ancestral.

O dia a dia de um Terreiro de Umbanda é FAMILIAR.

Todo o cotidiano de uma casa de Umbanda, assim como de Candomblé, é de cunho irretocavelmente FAMILIAR. A casa é mantida por todos e tudo é partilhado, dividido. Cada um sabe o seu papel e função dentro do grupo. Há sempre um “pai” ou mãe” daquela família que cuida dos filhos, sabe observar o que cada um tem de melhor e valorizar isso. Assim como sabe de suas limitações e tenta conduzi-lo para a superação e aprimoramento, respeitando os limites da natureza íntima de cada um. O objetivo primordial de uma família Umbandista, é estabelecer muito bem claro que ali há uma FAMÍLIA , em toda a concepção que essa palavra representa. E essa família tem duas naturezas; carnal e espiritual. A espiritual ajuda a unir os parentes encarnados e os guiam para o melhor ao nosso próprio caminhar encarnatório, para o grupo e para a humanidade, quando o grupo familiar está preparado para isso.

E o atendimento prestado aos necessitados que batem a porta da Umbanda tem grande valor. Primeiro que é o grande aprendizado para o médium, e todos os adeptos da casa. E segundo; não vamos esquecer que semelhante atrai semelhante. Podemos cruzar pelos terreiros, e suas giras de atendimentos por muitos irmãos de outrora, que atraímos para nós ou fomos atraídos, para ajudar a seguir adiante, pois como velhos conhecidos, sabemos mesmo que no inconsciente de suas necessidades.

Muitas pessoas vagam como almas moribundas e desorientadas, aqui e ali. Buscam soluções milagrosas aos seus problemas do dia a dia, querem ser ouvidas, compreendidas, afagadas. E muitos outros querem fazer da Umbanda e dos espíritos que ali trabalham como prestadores de serviços. E as causas são 90 por cento das mais egoístas e materialistas. Essas pessoas não despertaram para a importância espiritual e estão iludidas com o senso comum de séculos de preconceito contra as religiões de matrizes afro-brasileira, as tratando quem sabe, como os velhos senhorios que usavam as negras escravas para satisfazer suas vontades apenas e as deixavam como um objetivo de uso e descartável. Quando precisarem de novo, saberão onde buscar. Assim se comportam muitos e muitos que batem a porta dos terreiros. E lhes pergunto: você acha coerente: anos de dedicação, amor, abnegação ou limitações de várias coisas para se dedicar de corpo e alma a uma religião cujo único objetivo é curar a dor de barriga e vontades mesquinhas, vaidosas ou egoístas do maior percentual das pessoas que procuram os terreiros? Será que é pra isso que as entidades “baixam”? Para falar sobre futilidades; se fulano passará na prova, se cicrano está no curso certo, se deve casar, se o marido está traindo, se o bebê é menina, se o namorado voltará, como prender o amado, e pasmem; nesse tempo de mediunidade, até pedido para ajudar a ganhar na mega sena já presenciei. Nós estamos no terreiro para isso? Nossas entidades estariam? Elas atendem as pessoas conforme suas necessidades e não conforme elas querem. Por muitas vezes, tais diálogos do cotidiano servem como “pano de fundo” e através dele, vem tantas palavras e ensinamentos subliminares, mas que muitos ainda não tem capacidade de absorver, tão envolvido no imediatismo de sua própria vida materialista. Mas será que toda a dinâmica de interação entre médium, entidade, terreiro é algo muito mais profundo que isso, e a relação que para muitos é o objetivo primordial da Umbanda, que é a relação entidade-visitante é, na verdade, uma conseqüência de um processo muito mais íntimo entre adeptos e os mentores espirituais?

Entendam: muitos passarão pela Casa da Vovó Catarina, pela casa do Caboclo Sucuri, pelos Terreiros de Umbanda a fora, e muitos pegarão ou não algum ensinamento se tiver abertura para isso. E não irão voltar mais. Por que? Por duas pequenas razões: ali não é sua família espiritual, ou se é, ele ainda não está preparado para ver, enxergar e abraçar seus velhos irmãos, pais, avós, tios. Muitas e muitas voltas a vida pode dar, para anos ou décadas mais tarde, se estar quem sabe, pronto para estar no meio de sua família novamente. Ou então, sua família não está na nossa raiz, mas no budismo, no taoísmo, no catolicismo, evangelismo. Todas as religiões são raízes que nos conduzem aos troncos de registros mentais, que umas, mais que outras, estão em comunhão com o nosso atual estado mental-espiritual. E por isso, todas são maravilhosas. E quando você encontra sua família, como a sua vida se enche de alegria, de paz e contentamento. Eu encontrei a minha e isso preencheu e modificou minha vida e meu ser de forma sublime, e sei que ainda o modificará, pois muitas maravilhas ainda será despertada no seio de meus familiares ancestrais. Aqui é minha casa, é onde está minha alma, minha paz, minha alegria, minha força e entusiasmo de vida. E quando você encontrar sua casa, sua família, seus irmãos, pais, mães, avós, terá orgulho de dizer o que é, a qual família pertence, e o nome que ela tem. Da mesma forma que temos orgulho de dizer que somos filhos carnais de “João da Silva”, de “Maria de Sousa”, sentiremos orgulho também e não esconderemos que nossa família se chama Umbanda, que sua casa é X, que aquele Beltrano é seu Pai espiritual, que aquela é sua Irmã de fé. Mas enquanto não assumirmos verdadeiramente para nós primeiramente e para outros, o que somos espiritualmente falando, dentro de nós ainda está faltando a certeza de que ali está o seu amor, a sua alma, e que seu ser está entre parentes, entre irmãos, unidos pelo amor comum, pelo tronco familiar comum para trilharmos juntos essa grande aventura e fantástica viagem chamada VIDA. Este núcleo nos ajuda a nos compreendermos melhor, a entender o meio e nossa relação com ele. Ajuda-nos a harmonizar, a nos equilibrar e nos acolhe a alma para partilharmos momentos de vitórias, alegrias, e nos animar nos momentos de dificuldades e obstáculos. E ao contrário do que a maioria de fora (e diga-se de passagem, muitos de dentro também infelizmente) entende e quer fazer de nossa crença, um balcão de milagres e trabalhos de magia. Procuram a Umbanda para consultar as entidades e dirigentes espirituais para fazerem trabalhinhos para isso e aquilo, para o amor, para conseguir uma vaga acima da sua, para arrumar emprego, para passar numa prova, para tirar alguém de suas vidas, um rival, etc. Mas não esqueçam que a Umbanda é uma religião tal qual as outras; existem para nos conduzir ao equilíbrio e harmonia interior, a encontrar o sagrado divino dentro de nós e no plano invisível. Mas infelizmente muitos entendem que cuidar do espírito e “buscar a Deus” é na Igreja e na Umbanda você vai quando tiver precisando de um trabalhinho ou saber de alguma coisa. Na maioria das vezes, de caráter fútil e corriqueiro. E enquanto nós Umbandistas alimentarmos esse tipo de comportamento e não esclarecermos ou procurar promover uma “reeducação”, esse panorama não irá mudar. Mas irmãos, não nos esqueçamos que, a reeducação precisa começar de dentro para fora. Não adianta nada lutarmos em prol de movimentos contra intolerância, aceitação, se nós que somos “o movimento de umbanda”, continuarmos com visões, comportamentos e idéias distorcidas sobre nossas práticas e filosofia espiritual.

Não esqueçam que um Terreiro de Umbanda é um núcleo de irmãos, familiar nunca. E não um local onde você vai periodicamente “se tratar” porque assim “o orixá, o Exu X pediu e orientou. Não é local para simplesmente ir para tratar sua mediunidade porque não tem outro jeito e estão cobrando isso de você. Uma das bases filosóficas de nossa casa e de visceral importancia para nossa guia chefe, é justamente dar a liberdade de escolha para aqueles que ingressarem como adeptos de nossa casa, o faça por amor e afinidade com a religião e filosofia que nossa casa comunga. E não por obrigação e cobranças espirituais, seja de que ordem for. E a relação é superficial, até porque o indivíduo vai a contra gosto, porque se sente pressionado e acuado para ir, pois caso contrario entende que sua vida “irá dar pra trás e as doenças irão se instalar”. E aquela pessoa não se integrará como membro de uma familia e sim, como visitante.

Mas deixemos esse assunto pra ser tratado com maior esmero em outra oportunidade. Voltando ao assunto: família, deixe-me perguntar:
E você? Já encontrou sua família e a assumiu pra si e para os que lhe são queridos? Pense, reflita, ouço o seu coração e ele te dirá. Por isso é tão importante não ter vergonha de ser o que é, o que pratica, pois se as pessoas ao seu redor lhe amam, mas amam de verdade, irão respeitá-lo pelas suas escolhas do que lhe faz feliz, do que lhe dá alegria e paz. Mas se esse reconhecimento não chegou e você ainda tem medo, vergonha, e não sabe exatamente o que dizer quando lhe perguntam sua religião, crença, algo dentro de você precisa ser Reconheça a sua família espiritual, se entregue a ela, e sinta a retribuição em amor e semelhança. E o resto acontecerá naturalmente, quando esse sentimento que você tem ai, quando essa memória que você tem adormecida despertar, você verá como é bom dizer: sou Umbandista por amor e para o amor dos meus antepassados, dos meus semelhantes, e de mim como ser antigo vivente no mundo. E quando este dia chegar, não importa se você é médium incorporativo, ou é se assistente de terreiro. Você de fato e sem reservas entendeu o significado da Umbanda em sua vida, em muitas vidas, em nossa terra. Porque ela, assim como muitas outras religiões e cultos, somente existe por uma coisa chamada tronco e memória ancestral que está em mim, em você e no espírito que baixa num terreiro dizendo se chamar Tupinambá. Até porque, se o povo africano não tivesse vindo para o Brasil, os nativos da terra, não fossem os índios, e nossos colonizadores não fossem portugueses, seríamos um povo de cara diferente, costumes e crenças diferentes. E pense se existiria a Umbanda como ela se manifesta hoje em nosso país. Porque a religião está interligada a formação de determinado povo, e por isso mesmo, é parte do estudo dos povos nas faculdades de ciências humanas. Não pensem que as religiões são puramente “transcendentais”, desvinculadas de nossas crenças e formação cultural como gente, cidadãos de determinada região. O meio influencia o todo e as religiões são expressão também dessa formação humana que começou a ser montada a muitos e muitos séculos atrás e por isso mesmo, tem seu caráter ancestral. Eu tenho orgulho de dizer: “sou afro-ameríndia, sou parte de todos os elementos, parte do criador, parte de ti, e você é parte de mim! Axé, Adupé, Saravá, Namastê, Shalon, Amém.
Ana Araújo